Foto: Bia Hetzel

A união de esforços de uma fotógrafa e ambientalista apaixonada pela baía da Ilha Grande e uma bióloga não menos apaixonada pelos cetáceos criou o  Projeto Golfinhos que nasceu em dezembro de 1990, quando conseguimos organizar o primeiro cruzeiro para a observação de cetáceos no litoral sul do Rio de Janeiro e norte de São Paulo.

A bordo de uma escuna, durante cinco dias, avistamos e identificamos cinco diferentes espécies de golfinhos e três espécies de baleias. Os resultados foram surpreendentes e animadores.

A região da baía da Ilha Grande, principalmente, nos chamou a atenção pela sua beleza ímpar e suas águas abrigadas. Nós, que ao estudarmos os cetáceos em seu hábitat estamos tão acostumadas a enfrentar problemas como a falta de infra-estrutura de locais isolados, mau tempo e mares revoltos, ficamos maravilhadas com a possibilidade de poder estudar os cetáceos em um ambiente tão generoso. Não é todo cetólogo que, depois de um longo e cansativo dia de trabalho no mar, pode simplesmente “baixar a âncora” num belo porto e caminhar até a cidade para renovar suas energias, como acontece em Paraty. Trabalho era o que não faltava para os pesquisadores e ambientalistas no litoral sul do Rio de Janeiro !

Infelizmente, não se podia dizer o mesmo quanto aos financiamentos para as pesquisas ... É importante ressaltar que o Projeto Golfinhos não contou com financiamentos na primeira fase de suas atividades (1990-1994), apenas com o apoio de instituições locais e a boa vontade dos navegadores, que levaram as pesquisadoras de "carona" em suas embarcações.

Nossos levantamentos foram complementados com informações confiáveis fornecidas por habitantes locais (pescadores e navegadores), pesquisas na imprensa local e consultas à literatura científica e às coleções osteológicas de instituições do Rio de Janeiro. Uma rede de coloborados do projeto foi formada. As descobertas se multiplicaram, e os registros de ocorrências das espécies também. Nós e os cetáceos ganhamos novos amigos de valor inestimável.

Muitas caronas se passaram desde as primeiras viagens. Muita conversa e planejamento também. Aos poucos, e com muita força de vontade, organizamos e estruturamos o Projeto Golfinhos, cujas atividades e trabalhos inéditos desenvolvidos contribuiram para o melhor conhecimento dos cetáceos que ocorrem na baía da Ilha Grande.

Pesquisas executadas pelo Projeto Golfinhos, na primeira fase de suas atividades, concluíram que a baía da Ilha Grande possui uma significativa biodiversidade de espécies de cetáceos, visto que nesse local foram confirmadas as seguintes 13 espécies: baleia-franca-do-sul (Eubalaena australis), baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae), baleia-minke-anã (Balaenoptera acutorostrata), baleia-de-bryde (B. edeni), cachalote (Physeter macrocephalus), orca (Orcinus orca), falsa-orca (Pseudorca crassidens), baleia-piloto-de-peitorais-curtas (Globicephala macrorhynchus), golfinho-pintado-do-atlântico (Stenella frontalis), golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis), golfinho-flíper (Tursiops truncatus), golfinho-comum-de-bico-curto (Delphinus delphis) e boto-cinza (Sotalia guianensis). As espécies registradas utilizam a região para deslocamento, pesca, descanso e cria de filhotes.

Temos ali, durante todo o ano, a presença de botos e golfinhos, e nos meses de inverno e primavera ainda recebemos a vista das baleias, que vem das regiões antárticas e subantárticas à procura de águas quentes e calmas para descansar durante a sua longa rota migratória.

O acúmulo de informações nos proporcionou direcionar ações para objetivos mais específicos. Dessa forma surgiram as campanhas de educação ambiental e as pesquisas com os golfinhos-de-dentes-rugosos e o boto-cinza.

 

Foto: Bia Hetzel

Na década passada houve uma explosão de livros e vídeos sobre cetáceos bem como a venda de milhares de produtos temáticos da mídia em todo o mundo. Campanhas para proteger os mamíferos marinhos e seus hábitats existem em cada continente e o número de governos envolvidos em ordenar legislações relativas aos cetáceos é surpreendente. Tem sido exponencial o crescimento do número de projetos, muitos envolvendo a participação pública direta, e o número de pessoas se dedicando ao estudo dos cetáceos está crescendo sem parar.

Ainda precisamos ter muita determinação para confrontar o árduo trabalho que vem pela frente ... Contudo, temos orgulho da nossa contribuição, ainda que modesta, na obtenção de informações valorosas sobre os cetáceos que ocorrem em águas juridiscionais brasileiras.

Esperamos, com as informações contidas nesse web site, estar dando mais um passo para o melhor conhecimento e a proteção dos cetáceos além da divulgação do trabalho de pessoas que a eles vêm dedicando suas vidas, despertando dessa forma, a percepção e a consciência conservacionista nas futuras gerações.