Em Saquarema, litoral norte do Rio de Janeiro, lutamos lado a lado com a baleia-jubarte: ela pela própria sobrevivência e nós contra a desinformação da população e falta de recursos para uma situação que, já sabíamos, seria cada vez mais freqüente, à medida que as populações de baleias-jubarte se recuperassem do massacre provocado pela caça.

Por volta das 5:00 horas do dia 24 de agosto de 1991, uma jovem  baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) fêmea com 11m de comprimento total, encalhou viva na praia de Vilatur, Saquarema (22º55’ S ; 42º30’ W), litoral norte do estado do Rio de Janeiro.

A notícia correu pela região despertando a curiosidade de inúmeros banhistas e populares que deslocaram-se para a praia de Vilatur. Tratava-se de um sábado de sol com a temperatura por volta dos 32ºC. Consequentemente, um belo dia de lazer para freqüentar a praia, o que piorou ainda mais a situação. Uma multidão aglomerou-se ao redor da baleia fazendo grande algazarra.

Por volta das 9:30h uma equipe de biólogos chegou ao local do encalhe objetivando resgatar a baleia, que, aparentemente, encontrava-se em bom estado de saúde não apresentando nenhum tipo de ferimento e marcas de rede de pesca ao longo de seu corpo.

A primeira providência foi isolar o local do encalhe com cordas para que se pudesse manter a baleia-jubarte afastada cerca de 4m dos curiosos. Várias tentativas de impedir o acesso à baleia foram realizadas sem o menor sucesso pois foi extremamente difícil conter o ímpeto de uma população ignorante, sem a ajuda de uma autoridade oficial. Cerca de duas horas depois, uma equipe do Corpo de Bombeiros chegou à praia e conseguiu manter a ordem  no local do encalhe não permitindo que nenhuma pessoa, fora a equipe de resgate,  ultrapassasse o cordão de isolamento.

Paralelamente ao isolamento da área do encalhe a baleia foi recoberta com panos claros e foram cavados buracos ao redor das nadadeiras peitorais e caudal. Além dos biólogos, alguns voluntários foram recrutados para ajudar a mantê-la constantemente molhada com a água do mar, que era jogada sobre seu corpo com o auxílio de baldes, tentando aliviar seu sofrimento.

Foi cavado um profundo canal na areia pois com a chegada da maré alta objetivava-se facilitar dessa forma sua devolução ao mar. Cerca de 100 homens tentavam levá-la de volta à água durante a maré cheia mas a baleia não movia-se do local.

Durante todo o dia foram insistentemente solicitados auxílios logístico e de equipamentos necessários para o resgate à Capitania dos Portos, base Naval de São Pedro d’Aldeia, prefeitura de Saquarema e IBAMA. Os apelos não surtiram efeitos.

Às 17:00h dois particulares emprestaram uma traineira e uma lancha, que eram pequenas demais e sem força suficiente para rebocar a baleia.

No início da noite populares conseguiram uma retroescavadeira para aprofundar o canal mas, ao tentar retirar a areia das proximidades da baleia, a retroescavadeira acabou por ferir sua nadadeira peitoral. O animal que até então encontrava-se aparentemente calmo e seguindo toda a movimentação ao seu redor com um olhar cativante, ficou extremamente agitado, batendo fortemente com a cabeça e a nadadeira caudal.

A noite chegou e apesar dos esforços, nenhum sucesso tinha sido obtido. Durante a madrugada foi mantida uma vigília para garantir a integridade física do animal. Ao amanhecer, recomeçaram as tentativas de salvamento.

As horas se passavam e os esforços dos biólogos e voluntários acabaram naufragando numa maré de burocracia, pois nenhum órgão oficial havia conseguido um rebocador para retirá-la da areia. Os inúmeros apelos não haviam surtido efeito. Consequentemente, ficava cada vez difícil controlar a situação na praia. Conforme a maré ia enchendo alguns voluntários obtinham permissão para ultrapassar o cordão de isolamento em mais uma tentativa de deslocar a baleia para o mar. No entanto, algumas pessoas se aproveitavam do fato e invadiam a área proibida. Para piorar ainda mais a  situação, nesse dia apenas dois policiais foram destacados para impedir o assédio dos curiosos. Os policiais também enfrentavam uma série de dificuldades para conter a multidão, que com o passar das horas aumentava cada vez mais.

O drama da baleia-jubarte encalhada viva despertou reações insólitas das mais variadas tais como:

-  Alguns pescadores munidos de facões já cogitavam fazer uma “peixada” com sua carne enquanto outros incitavam a multidão para que deixassem o animal morrer pois a carne poderia ser repartida pelos pobres: “se for salva ela vai morrer mesmo no mar pois está cansada e antes sua carne ser consumida pelos humanos do que pelos organismos marinhos”

-  Vendedores ambulantes diziam abertamente que o encalhe estava lhes rendendo “um bom dinheiro”: “Se essa baleia ficasse mais tempo por aqui, poderíamos ficarricos”

-  Pessoas tiravam fotos sentadas na baleia

-  Um homem, que, pousando como “herói”, montou em seu dorso

-  Retirada de “souvenirs” como cracas aderidas à cabeça e nadadeiras peitorais da baleia-jubarte

-  Tentativas de empurrar a baleia pelo olho

-  Água era lançada através de baldes dentro do orifício respiratório, que encontrava-se descoberto pelos panos

-  Tomada por afeto, uma mulher fazia carinho na nadadeira caudal da baleia como se fosse um enorme boneco de plástico de circo

Embora muita gente quisesse ajudar, ninguém sabia direito como fazê-lo. Sem a devida contenção, cada um agia como queria. A baleia resistia bravamente e os biólogos e voluntários mesmo cansados, ainda tinham esperanças no salvamento, ainda que tivessem que enfrentar uma multidão ensandecida e desenformada, falta de equipamentos e ajuda oficial. Enfim, a situação era caótica. A essa altura, a pobre baleia-jubarte já havia sido apelidada de “Rosane Collor”.

A boa vontade de centenas de voluntários venceu o descaso oficial. A imprensa também teve um papel decisivo pois a cada momento, divulgava notícias na televisão, rádio e nos jornais sobre o drama da baleia encalhada, emocionando o Brasil com sua agonia e gana de viver. A Petrobrás se sensibilizou com a situação e cedeu o rebocador “Delba Manoela” que deslocou-se para a região, chegando por volta de 10:00h do dia 26 de agosto de 1991. No entanto, a operação de desencalhe só teve início às 13:30h, quando chegou ao local uma grande rede improvisada com cordas revestidas de lona para não machucar a baleia que a essa altura, já apresentava um comportamento bastante agitado, batendo sua

Somente às 16:30h, após cinco tentativas frustadas de resgate, o rebocador conseguiu deslocar à baleia a uma distância de cerca de 200m da praia, sob os aplausos de quase 2500 pessoas que passaram o dia na praia. O grande número de curiosos atrasou os trabalhos da equipe de salvamento, composta por biólogos, voluntários, corpo de bombeiros, guarda-vidas da prefeitura e polícia militar.

No mar, o animal deslocou-se lentamente rumo ao norte e ao realizar um mergulho profundo, expôs sua nadadeira caudal, não tendo sido mais visualizado. Nos dias subsequentes a região foi monitorada e não houve nenhum caso registrado de encalhe. A baleia de Vilatur ganhou uma segunda chance, sobretudo devido à sua própria vontade de viver.

Motivada por aquele inesquecível espetáculo, a fotógrafa Bia Hetzel escreveu um livro infanto-juvenil entitualdo Rosalina – A pesquisadora de homens”  publicado em 1994 e ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura desse mesmo ano. O livro, além de informar sobre a presença das baleias-jubarte em nossas águas, conta a estória de “Clotilde” que foi salva de um encalhe e pode contar sua estória para sua prima tagarela “Rosalina”, que se encarregou de espalhar para todas as outras baleias-jubarte como foi a inesquecível e inusitada aventura de “Clotilde” com os seres humanos.

Em Saquarema lutamos lado a lado com a baleia-jubarte: ela pela própria sobrevivência e nós contra a desinformação da população e falta de recursos para uma situação que, já sabíamos, seria cada vez mais freqüente, à medida que as populações de baleias-jubarte se recuperassem do massacre provocado pela caça.

Texto: Liliane Lodi


:. Esse bicho é tão diferente...
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