Desde os tempos bíblicos a estória de Jonas e a baleia era bem conhecida. Quem quando criança não se recorda da estória de Pinóquio e do famoso clássico da literatura Moby Dick ?

Baleia: força que se prende nas redes do imaginário
Gravura em madeira representando baleias e crustáceos gigantes, extraída da obra Cosmografia Universal, Muster (1675)

Quando a Terra foi criada, ela balançava-se sobre um grande mar. Então Allah mandou que um anjo descesse dos céus e erguesse a Terra das águas. O anjo assim fez, apoiando a Terra em seus ombros enquanto procurava algo firme em que pudesse apoiá-la. Para fazer esse suporte, Allah criou uma grande pedra verde e a pousou nos chifres de um touro de mil cabeças, que por sua vez ficou de pé sobre uma baleia tão enorme que, se toda a água do mar caísse sobre uma de suas narinas, seria como se uma semente de mostarda caísse sobre o deserto. Mas a Terra só estaria segura, apoiada sobre a pedra, o touro e a baleia, se o gigantesco animal marinho se mantivesse imóvel. Um mínimo movimento da baleia provocaria cataclismos. Evidente que o demônio não perdeu a oportunidade de tentar a baleia para que ela tivesse vontade de se sacudir e se livrar do incômodo fardo. Mas Allah veio em socorro da Terra e fez com que uma pequena criatura entrasse pela narina da baleia e cavasse um caminho até o cérebro do animal. Desesperada de agonia, a baleia rezou implorando a Allah para que ele desse fim àquele tormento. Allah atendeu à súplica do gigante, mas manteve a pequena criatura para sempre em frente a ele, ameaçando voltar a atormentar a baleia caso ela cedesse à tentação do demônio e fizesse qualquer movimento.

Essa história faz parte do mito sobre a origem do universo segundo o islã. Por isso, os muçulmanos tradicionalmente chamam os cometas e as estrelas cadentes de “filhos da baleia”, pois os consideram sinais enviados para nos lembrar do quão frágil é o equilíbrio que mantem a estabilidade do mundo.

No livro Gênesis, da Bíblia hebraica, a baleia é o primeiro ser citado por Deus na criação da vida que faz fervilhar as águas. E o grande animal marinho volta a ser citado em outros livros da Sagrada Escritura como o Leviatã, ser fantástico que concentra toda a força da Natureza e também todo o medo do Homem frente à essa força:

Poderás pescar o Leviatã com anzol

e atar-lhe a língua com uma corda?

Serás capaz de passar-lhe um junco pelas narinas,

ou perfurar-lhe as mandíbulas com um gancho?

Virá a ti com muitas súplicas,

ou dirigir-te-á palavras ternas?

Farás um contrato contigo,

para que faças dele o teu criado perpétuo?

Brincarás com ele como um pássaro,

ou amarra-lo-ás para as tuas filhas?

Negociá-lo-ão os pescadores,

ou dividi-lo-ão entre si os negociantes?

Poderás crivar-lhe a pele com dardos,

ou a cabeça com arpão de pesca?

Põe-lhe em cima a mão:

pensa na luta, não o farás de novo.

A tua esperança seria ilusória,

pois somente o vê-lo atemoriza.

Não se torna cruel, quando é provocado?

Quem lhe resistirá de frente?

Quem ousou desafiá-lo e ficou ileso?

Ninguém, debaixo do céu.

Não passarei em silêncio seus membros,

nem sua força incomparável.

Quem abriu sua couraça

e penetrou por sua dupla armadura?

Quem abriu as portas de suas goelas,

rodeadas de dentes terríveis?

Seu dorso são fileiras de escudos,

soldados com selo tenaz,

tão unidos uns aos outros,

que nem sopro por ali passa.

Ligados estreitamente entre si

e tão obem conexos, que não se podem separar.

Seus espirros relampejam faíscas,

e seus olhos são como arrebóis da aurora.

De suas goelas irrompem tochas acesas

e saltam centelhas de fogo.

De suas narinas jorra fumaça,

como de caldeira acesa e fervente.

Seu hálito queima como brasas,

e suas goelas lançam chamas.

Em seu pescoço reside a força,

diante dele corre a violência.

Quando se ergue, as ondas temem

e as vagas do mar se afastam.

Os músculos de sua carne são compactos,

são sólidos e não se movem.

Seu coração é duro como rocha,

sólido como uma pedra molar.

A espada que o atinge não resiste,

nem a lança, nem o dardo, nem o arpão.

O ferro para ele é como palha;

o bronze, como madeira carcomida.

A flecha não o afugenta,

as pedras da funda são felpas para ele.

A clava é para ele como lasca

ri-se do sibilo dos dardos.

Seu ventre coberto de cacos pontudos

é uma grade de ferro que se arrasta sobre o lodo.

Faz fever o abismo como uma caldeira,

e fumegar o mar como um piveteiro.

Deixa atrás de si uma esteira brilhante,

como se o oceano tivesse uma cabeleira branca.

Na terra ninguém se iguala a ele,

pois foi feito para não ter medo.

Afronta os mais altivos,

é o rei das feras soberbas.”

Jó, Antigo Testamento, A Bíblia de Jerusalém.

O maior animal do mundo. O único que o homem jamais conseguirá domar. Aquele que reina absoluto na água — o mais misterioso dos quatro elementos — e dela surge para liberar o maior de todos os suspiros. Ser que concentra todo o fôlego e a alma indecifrável do mundo.

Em várias culturas primitivas, a baleia aparece como ente imbuído de força divina. Mesmo para aqueles acostumados ao convívio com as espécies reais de baleias, como por exemplo os povos mediterrâneos e escandinavos, tradicionais navegantes, ou para pessoas de culturas litorâneas, como os esquimós e os vietnamitas, a grande besta mitológica-marinha acabou engolindo a realidade para se agigantar no imaginário do homem.

Em todo o mundo, ao longo dos séculos, dois mitos sobre as baleias são recorrentes. O primeiro é a baleia-ilha. O segundo é a grande boca do mistério que engole o homem, que depois renasce fortalecido do ventre do “grande peixe”.

A Caça ao Narval. Gravura extraída da obra Relation des pays du Nord, de P. Martin de La Martiniére, publicada em Amsterdã em 1685.

Alguns dos mais antigos relatos sobre baleias-ilhas remontam há mais de dois mil anos, quando sábios romanos e gregos registraram estupendos relatos anedóticos envolvendo esses animais. Na escuridão dos oceanos, as baleias “adormecidas”, boiando na superfície da água como gigantes ilhas negras, sempre foram — e continuam sendo! — uma preocupação para os navegantes. O risco real, para embarcações muito silenciosas como os veleiros, é o de uma imprevisível colisão com essas falsas ilhas. O risco imaginário, porém, surge quando supomos reais essas ilhas. Daí surgem histórias maravilhosas de pescadores que “ancoram” em baleias e de outros que chegam até a construir casas ou cidades sobre elas, mas, um dia, quando tentam fazer uma escavação ou armar uma fogueira, sem querer provocam a ira da besta gigantesca. Na literatura, e na tradição oral das mais variadas culturas essas histórias se repetem. Eu mesma, convivendo com pescadores e navegantes de vários locais do Brasil, já ouvi algumas variações sobre o tema, sendo uma das mais interessantes a da baleia-ilha de Paraty, animal fácil de reconhecer pelo bambuzal que carrega em seu dorso. Mas, mesmo quem vive longe do mar também pode conhecer “causos” de baleias-ilhas. Muitas de nossas crianças encontram-se pela primeira vez com esse mito “lendo” as imagens de A flor do lado de lá, livro que inaugurou a carreira literária do hoje consagrado escritor e ilustrador Roger Mello.

Outra história conhecida desde a infância por pessoas de todo o mundo é a do “o homem engolido pela baleia”. Há quase dois milênios, reconta-se nos livros proféticos da Bíblia Sagrada a saga de Jonas (nome que em hebraico significa “pombo”), emissário que, por julgar arriscada demais a missão de levar a palavra divina a uma cidade de vingativos pecadores, tenta fugir da obrigação imposta pelo Todo Poderoso aventurando-se em um navio mercante. Só que a partir daí o profeta desobediente passa a sofrer com as “brincadeiras” e provas que Deus coloca em seu caminho, levando-o, mesmo contra a vontade, a cumprir sua missão e seu destino.

A primeira das provas vividas por Jonas é uma tormenta em alto mar, que faz com que os marinheiros, amedrontados frente à iminência do naufrágio, lancem a sorte para descobrir quem, entre os tripulantes, estaria provocando a ira divina e toda aquela desgraça. Lançada, a sorte cai justamente sobre Jonas, que acaba confessando sua desobediência e, arrependido, diz aos marinheiros:

“— Tomai-me e lançai-me ao mar e o mar se acalmará em torno de vós, porque eu sei que é por minha causa que esta grande tempestade se levantou contra vós.”

Assim fazem os marinheiros, mas antes rezam ao Deus de Jonas suplicando para que a culpa de sua morte não recaia sobre eles. Atendendo aos marinheiros, Deus faz surgir um “grande peixe” para engolir o profeta, que permanece nas entranhas do monstro por três dias e três noites, rezando arrependido para agradecer a salvação e para merecer a chance de voltar à terra e cumprir sua missão. “Então Deus fala ao peixe, e este vomita Jonas sobre a terra firme”.

Jonas na Boca da Baleia. Iluminara da escola francesa (século XIV) pertencente a uma bíblia da Abadia de Saint-Berlin, em Saint-Omer.

A estadia forçada no estômago da baleia é um rito de passagem que se repete em narrativas orais e escritas. Alienando-se do mundo externo na solidão do ventre do oceano, o herói tem um encontro mágico com sua verdade interior que lhe dá forças para vencer o sofrimento da morte simbólica e renascer modificado e fortalecido.

Na história recente do mundo ocidental, foi o escritor Carlo Collodi quem mais popularizou esse mito, incorporando-o como um dos principais capítulos da história da marionete de madeira que se transforma em menino. As aventuras de Pinóquio, publicadas pela primeira vez em Florença, no Giornale dei Bambini, no século XIX, continuam sendo recontadas em livros, peças de teatro e filmes com grande popularidade.

A força da baleia no imaginário humano parece ser realmente infinita. Mesmo depois que inventaram-se máquinas e embarcações poderosas que permitiram ao homem não só dominar os mares e começar a desvendar o mistério dos oceanos, mas também perseguir, caçar e massacrar os maiores animais que já viveram sobre o planeta, os grandes cetáceos continuaram multiplicando-se entre os clássicos da literatura. O confronto com a baleia real só fez aumentar o mito sobre o animal.

No tempo em que o progresso do mundo ocidental baseava-se mais do que nunca na indústria baleeira, em meados do século XIX, surgiram vários clássicos importantes: o primeiro e mais famoso é, claro, Moby-Dick, de Herman Melville, publicado em 1851. Nesse livro maravilhoso, o autor narra com riqueza de detalhes a perseguição do maior e mais valente cachalote de todos os tempos, personagem inspirado em duas baleias que realmente existiram. A primeira, foi o cachalote que afundou o navio-baleeiro Essex, no oceano Pacífico, em 1820. O segundo foi um animal albino, avistado na costa do Chile em 1810, perto da Ilha Mocha, que foi batizado de “Mocha Dick”. Misturando ficção com realidade, Melville criou um clássico da literatura mundial. Pedro, o baleeiro, de W.H. G. Kingston, e Os baleeiros, do francês Alexandre Dumas, são outros romances importantes da mesma época.

Os mitos sobre a caça às baleias são inúmeros. Lutando mais contra as bestas imaginárias do que contra os dóceis seres que são os grandes cetáceos na realidade, os homens aumentaram estupidamente a sua coragem e a grandiosidade de seus feitos. Apesar do enorme tamanho, as baleias raramente manifestam agressividade contra os homens. Mesmo quando atacadas. Mesmo até quando vêem seus filhotes sendo atacados! Entre mais de uma dezena de espécies de baleias verdadeiras (aquelas que têm barbatanas), sabe-se que somente as baleias-cinza chegam a atacar as embarcações para se defender. Os cachalotes — que têm dentes e são mais próximos dos golfinhos do que das baleias do ponto de vista biológico — também podem eventualmente se mostrar agressivos quando molestados, mas não é necessário exatamente heroísmo para caçá-los. As técnicas baleeiras são, a bem da verdade, muito mais covardes do que heróicas. Durante séculos, enquanto o homem caçava os grandes cetáceos com arpões de mão, a tática da caça consistia em primeiro arpoar os filhotes, não para matá-los, mas para deixá-los agonizantes, pois assim as baleias adultas se aproximariam docilmente em socorro da cria e não ofereceriam resistência aos arpões. Mais tarde, com a invenção do canhão-arpão, os caçadores ficavam em seus navios-fábrica, a longas distâncias de seus alvos, atirando arpões munidos de explosivos sobre os animais indefesos.

Tamanha foi essa sangrenta caçada, que as baleias começaram a desaparecer dos mares. E assim começaram a surgir novas histórias não menos interessantes... A luta contra a extinção das baleias tornou-se um símbolo do movimento ecológico que vem tomando conta do pensamento moderno. E os heróis desse novo capítulo da história do relacionamento entre os homens e os cetáceos espalham-se por livros, filmes, teatros...

Minha baleia-jubarte falante, a “Rosalina”, inspirada em fatos e animais reais e que nasceu também dessa luta pela conservação dos recursos naturais, pode ser considerada um exemplo da sede do imaginário humano pelas histórias de baleias. Hoje, já são muitas dezenas de milhares de exemplares dessa minha primeira aventura pela literatura infantil a navegar pelo Brasil. Mas, viajando pelo mundo, já reparei que “Rosalina” é apenas uma, entre as dezenas de baleias que vagam pelo imaginário das crianças. Tomara que as baleias da realidade tenham a força das baleias míticas para atravessar muitos e muitos novos séculos de vida nesse planeta Terra de tão frágil equilíbrio!

                                                               Texto: Bia Hetzel


:. Esse bicho é tão diferente...
:. Baleias
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