A BAÍA DA ILHA GRANDE


No limiar do século XVI, a baía da Ilha Grande era habitada pelos povos indígenas guaianás e tupinambás. Em 6 de janeiro de 1502, durante as expedições de exploração da costa brasileira, chegaram à região os primeiros portugueses, futuros colonizadores. Em homenagem aos Reis Magos, deram ao local o nome de “Baía de Reis”. Para conquistá-la porém, tiveram que travar sangrentas batalhas com os índios, principalmente com a nação tupinambá, liderada pelo cacique Cunhambebe.

O grande número de baleias que ocorriam na região nos séculos passados pode ser constatada através de registros históricos. No Rio de Janeiro, entre os séculos XVII e XVIII, existiam três armações (fábricas para processar baleias): a de São Domingos, localizada na entrada da baía de Guanabara; a de Cabo Frio, em Búzios; e a armação da ilha da Gipóia, na baía da Ilha Grande. Em 1717, o Conde de Assumar, em seu “Diário de Jornada do Rio de Janeiro à Santos” descreveu a grande quantidade de baleias no interior dessa baía e o perigo de navegar nesta área, uma vez que os remadores tinham medo que as baleias encostassem e virassem suas canoas, como de fato algumas vezes havia chegado a acontecer. Nos mapas dos séculos XVII e XVII, a ponta Grossa da Marambaia estava assinalada como “ponta do Arpoador” e a ilha de Macacos como “ilha do Arpoador”. Nesta mesma época, várias outras localidades dentro da baía da Ilha Grande tinham a denominação de “ponta do Arpoador” e “ponta Arpuá”. Outros testemunhos da caça no passado às baleias na baía da Ilha Grande encontram-se na cidade histórica de Paraty, que já foi iluminada por óleo de baleia e até hoje preserva diversas construções cimentadas por argamassas à base deste mesmo óleo.

Embora não existam registros de todas as espécies caçadas e do número de baleias capturadas na baía da Ilha Grande, sabe-se que uma baleia-jubarte adulta foi arpoada no século XIX nas proximidades de Paraty. Seu esqueleto, montado em 1886, encontra-se em exposição no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ainda hoje, tachos de ferro utilizados para derreter o óleo das baleias podem ser vistos no jardim do Forte Defensor Perpétuo, em Paraty, e mergulhadores da região costumam relatar, vez por outra, terem encontrado ossos de baleias no fundo do mar.

Com o fim da caça comercial, as populações de baleias estão se recuperando e, lentamente, voltando a reocupar antigas áreas de distribuição geográfica do passado. A baía da Ilha Grande constitui uma dessas regiões. A cada ano, somos brindados a presença desses magníficos animais deslocando-se graciosamente pelas protegidas águas da baía.

Foto: Liliane Lodi

A baía da Ilha Grande (23º06’S 44º00’W - 23º18’S 44º30W), localizada no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, possui uma área de 1.124 km2 que abrange uma grande reentrância entre a ponta Grossa da Marambaia e a ponta de Juatinga. A ilha Grande, situada à frente da baía e merecedora de seu nome por sua grande extensão (193 km2), atua como barreira favorecendo a predominância de águas abrigadas  em seu interior. A profundidade máxima dessa baía é de 50m e suas águas quentes (média 27ºC) banham cerca de 365 ilhas contidas em seu interior.

A baía abriga vários tipos de ambientes, onde se desenvolvem milhares de formas de vida, caracterizando-se por um litoral recortado, cercado de restingas, estuários, manguezais, lagunas, costões rochosos e pequenas angras conhecidas como baía de Mangaratiba, baía de Jacuacanga, baía da Ribeira e baía de Paraty. Centenas de praias de areias alvas, interrompidas pelos negros costões de gnaisse, distribuem-se pelo litoral e pela orla das ilhas e ilhotas típicas da região. Três municípios englobam essa baía: Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty.

O clima é tropical úmido, com elevado índice pluviométrico. A Serra do Mar, que acompanha o litoral desde Santa Catarina até o Rio de Janeiro, assumindo diferentes denominações locais, é revestida em toda a sua extensão pela Mata Atlântica. Na baía da Ilha Grande, a mata se debruça diretamente sobre o mar. A cobertura ainda comum da exuberante vegetação sobre as encostas - uma das principais características da região -  dá à localidade o nome “Costa Verde”- um dos mais belos trechos do litoral brasileiro.

A parte oeste da baía da Ilha Grande sofre forte influência das águas da plataforma continental, com predominância de uma circulação de fundo no sentido horário, da porção oeste (Paraty) para leste (baía de Sepetiba). Estudos indicaram uma ocorrência de influxo de água superficial (nos primeiros 10m), feito pelos dois lados da Ilha Grande, sendo que a oeste esse influxo apresenta maiores velocidades (média 8,8 cm/s) indo em direção ao interior da baía.

Os ambientes marinhos do litoral da baía da Ilha Grande comportam-se como áreas de transição entre a terra e o mar. Do continente, recebem toda a matéria orgânica proveniente da Serra do Mar, através do deságüe dos rios e da produção dos manguezais. Do mar, recebem os nutrientes oriundos das águas profundas do oceano durante o verão (Água Central do Atlântico Sul – ACAS), que afloram próximo à costa e penetram na baía pelo canal oeste da baía da Ilha Grande, causando o fenômeno da ressurgência, que enriquece as águas costeiras. A ocorrência das águas com características da ACAS - mais frias e salgadas - se misturam com as águas mais quentes e doces das áreas estuarinas no interior da baía de Paraty, seguindo um sentido horário, em direção a Angra dos Reis.