|

| Caçadas
quase a exaustão, as baleias-francas-do-sul estão mostrando
sinais de recuperação populacional e voltando a reocupar antigas
áreas de distribuição geográfica do passado. O litoral fluminense
constitui uma dessas áreas. No entanto, o molestamento intencional,
o risco de colisões com embarcações e enredamentos em equipamentos
de pesca demonstram que a espécie encontra-se vulnerável às
atividades humanas. Veja como condutas muito simples podem
ser tomadas para auxiliar na conservação desses interessantes
animais |
A BALEIA-FRANCA-DO-SUL
NO RIO DE JANEIRO E SUAS INTERAÇÕES COM ATIVIDADES HUMANAS: COMO
COLABORAR COM A SUA CONSERVAÇÃO
:. HISTÓRICO DO GIGANTE
NAVEGANTE
NA ORLA FLUMINENSE
Relatos de Jean de Lèry
no final do século XVI e um quadro pintado por Leandro Joaquim
em 1710, retratando a caça de baleias, fornecem indícios históricos
de que as baleias-francas-do-sul eram comuns no interior da baía
de Guanabara. A presença de E. australis no interior dessa baía foi
posteriormente confirmada por Miranda Ribeiro, que descreveu um
bloco de vértebras cervicais encontrado em escavações no bairro
de Botafogo, em 1931. Contudo, apenas em setembro de 1977, uma
fêmea com seu filhote foram observadas em Maricá,
litoral norte do estado. Desde então, as ocorrências da espécie
na costa fluminense foram gradualmente aumentando.
Caçadas quase a exaustão, as baleias-francas-do-sul
estão mostrando sinais de recuperação populacional e voltando
a reocupar antigas áreas de distribuição geográfica do passado.
Essa boa notícia só foi possível devido a
medida de proteção adotada pela Liga
das Nações, em 1931, com a Convenção
para a Regulamentação da Caça da Baleia, que só entrou em
vigor efetivamente, em 1935, em segmento à sua ratificação pelas
nações signatárias, incluindo o Brasil.
:. INFORMAÇÕES ATUAIS
Entre setembro de 1977
e dezembro de 2003, foram realizadas 69 avistagens
de E. australis
(incluindo possíveis duplas contagens), entre o Saco do Mamanguá/baía
de Paraty (23º18`S 44º30`W) e Macaé (22º23’S 41º47’W). Pares de fêmeas/filhotes
constituíram 68,1% dos registros. A maior freqüência das avistagens
foi verificada em julho (20,2%), agosto (36,2 %) e setembro (20,2
%). Consequentemente, com o número de ocorrências de baleias-francas-do-sul
aumentando é esperado que o número de ameaças cresçam também.
Uma análise dos registros mostra que há uma preocupante interação
de E. australis
com atividades humanas, devido aos seus hábitos costeiros.
:. AMEAÇAS:
Pares de fêmeas com filhotes passam a maior parte
do tempo descansando e nadando em áreas preferencialmente logo
após a arrebentação das ondas, em torno de 5m de profundidade.
Trata-se de uma nadadora lenta, que pode bater fortemente com
as nadadeiras peitorais e caudal na superfície
da água e por vezes exibir ambas as nadadeiras peitorais
acima da superfície quando estão com o ventre para cima. Tais
comportamentos podem dar a falsa impressão de que estão encalhando
e, as pessoas, com boas intenções, tentam “desencalhar” os animais,
direcionando-os para as áreas de mar aberto através de embarcações
ou aeronaves.
Essa atitude, além de causar distúrbios, provoca sérios riscos de
colisão com embarcações, especialmente os filhotes, que ainda
não possuem uma musculatura bem desenvolvida e não são capazes
de realizarem manobras complexas.
As baleias-francas-do-sul
são curiosas e apresentam tolerância à aproximação de barcos.
Em 35 diferentes ocasiões, as baleias-francas-do-sul foram gravemente
molestadas por embarcações e/ou aeronaves
que as perseguiram de forma irresponsável interrompendo o
curso natural de seus deslocamentos, dispersando-as e dirigindo-as
para áreas afastadas da costa. Em 10 de setembro de 1995, um filhote
colidiu com uma embarcação nas proximidades da ilha da Cotia,
baía de Paraty, e em 17 de agosto de 2001, em Conceição de Jacareí,
houve um provável abalroamento de um adulto. Em Macaé, Maricá,
Itaipuaçu, praia de Ipanema, Barra de
Guaratiba e Conceição de Jacareí foram
observadas baleias-francas-do-sul adultas e filhotes com pedaços
de redes de pesca envoltos em diferentes partes de seus corpos.
:. CONDUTAS SIMPLES AUXILIAM
A CONSERVAÇÃO DA BALEIA-FRANCA. COMO COLABORAR
?
Durante seu período migratório
em baixas latitudes as baleias praticamente não se alimentam.
Sobrevivem da energia da camada de gordura que armazenam durante
seu período de alimentação em águas circumpolares. Qualquer gasto
desnecessário de energia, como por exemplo
em um episódio de fuga durante uma perseguição, pode prejudicar
a saúde dos animais fazendo com que seu retorno para águas subantárticas
possa até mesmo não vir a acontecer.
Apesar de protegida,
a baleia-franca-do-sul encontra-se ainda
numa situação vulnerável e o desaparecimento de um único espécimen
representa uma perda irreparável para a saúde populacional da
espécie, principalmente, levando-se em consideração que o ciclo
reprodutivo típico de fêmeas maturas é de três anos entre os nascimentos.
Medidas muito simples
devem ser adotadas para auxiliar na conservação dessas ilustres
visitantes. Portanto, as seguintes condutas são recomendadas:
·
Nunca perseguir, interromper ou alterar o curso natural e conduzir
as baleias para determinadas áreas,
·
Não aproximar-se das baleias com aeronaves
em altitude inferior a 100m sobre o nível do mar e,
·
Recolher petrechos de pesca que porventura estejam na área de
ocorrência das baleias (trata-se de uma atitude coerente que evitará
danos tanto aos equipamentos quanto nos animais)
As baleias-francas-do-sul
costumam permanecer com seus filhotes por longos períodos no mesmo
local se não molestadas, oferendo uma
oportunidade única para celebrar sua presença na orla fluminense.
Em Santa Catarina, área
de maior concentração de baleias-francas-do-sul no litoral brasileiro,
os moradores já perceberam que é vantajoso manter os animais sem
qualquer tipo de perturbação o que tem promovido um ótimo lucro:
o turismo ecológico.
As informações aqui reportadas
reforçam a necessidade da adoção de programas educacionais efetivos
direcionados à população fluminense em geral, às instituições
públicas como o Grupamento Marítimo do Corpo de Bombeiros e às
organizações ambientais.
Lembre-se:
As baleias-francas-do-sul não devem ser molestadas uma vez que
ainda encontram-se incluídas
na Lista
Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção,
publicada em 27 de maio de 2003.
:. O TRISTE FIM DO ENCALHE
EM SAQUAREMA
Em 16 de janeiro de 2004, às 11:00h uma baleia-franca-do-sul
subadulta, com cerca de 8m de comprimento
total encalhou na praia do Boqueirão, Saquarema, litoral norte
do Rio de Janeiro. Apesar dos esforços de várias pessoas, a baleia
só conseguiu ser resgatada por volta das 15:00h com a chegada
da maré cheia. Aparentando estado de fraqueza, a pequena baleia
deu um show de sobrevivência em sua luta para retornar ao mar.
No dia seguinte, o animal voltou a reaparecer na praia de Itaúna, cerca de 6 km ao norte do local do primeiro encalhe
e dessa vez, não teve a sorte de se deparar com pessoas bem intencionadas
... Ao se aproximar da areia, provavelmente em um novo
encalhe, a baleia foi morta a facadas sendo sua carne distribuída
entre a população local. Vários churrascos foram preparados em
comemoração a inesperada e gratuita fartura
de carne.
Matar animais da fauna silvestre ameaçados de extinção trata-se de
crime ambiental previsto na Lei Federal Nº 9605, de 12 de fevereiro de 1998, que dispõe
sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas
e atividades lesivas ao meio ambiente.

|